
Documentário
Araguaia:
Guerra
dos Ossos.
A série documental “Araguaia, Guerra dos Ossos”, tem como temática central o processo que envolve a busca dos corpos de 58 pessoas desaparecidas em meio ao episódio da Guerrilha do Araguaia, ocorrido no sudeste do Pará e na região conhecida como Bico do Papagaio, entre os anos de 1966 e 1974.
Em plena Ditadura Militar no Brasil, a Guerrilha do Araguaia constitui-se como um movimento armado que se colocou contra o regime e visava mobilizar uma revolução socialista no país. Estabelecendo relações de cooperação com camponeses e tendo como refúgio a Serra das Andorinhas, as margens do Rio Araguaia, os guerrilheiros foram perseguidos, combatidos e violentamente aniquilados pelas Exército Brasileiro. A maioria dos guerrilheiros foram presos, torturados, mortos e seus corpos desaparecidos.
Relatos com testemunhos de camponeses, mateiros e ex-soldados sobre esses acontecimentos foram apresentados em uma produção anterior, dirigido por Evandro Medeiros, membro da equipe do presente projeto, o filme documentário “Araguaia, Campo Sagrado” (Produtora LaBour Filmes, 2010), que privilegia as narrativas de personagens invisibilizados socialmente para contar a histórica da Guerrilha do Araguaia e as atrocidades cometidas pelo Exército Brasileiro, inclusive contra a população local, considerada pelos agentes do Estado aliada dos guerrilheiros. Em seus relatos, os personagens contam o que sofreram na época e narram com detalhes como os guerrilheiros foram capturados, torturados e mortos, com corpos enterrados na floresta, em bases militares ou simplesmente jogados de dentro de um helicóptero no rio.
Sem registros ou publicização de informações oficiais sobre suas prisões e situação posterior, estima-se que 69 membros da Guerrilha do Araguaia foram mortos em meio ao conflito com Exército Brasileiro e 57 foram desaparecidos.
Em 1982, durante o período de “abertura política” promovido pelo governo em meio ao fim da Ditadura Militar, familiares dos envolvidos na Guerrilha do Araguaia entraram com processo judicial contra o Estado brasileiro, pediam informações sobre o processo de prisão, morte e localização das sepulturas de seus entes desaparecidos.
Como resultado da mobilização das famílias que tiveram parentes mortas ou desaparecidas durante a Ditadura Militar no Brasil, em 1995 foi instituída Comissão Especial sobre Mortos e Desparecidos Políticos (CEMDP - Lei nº 9.140/1995), com objetivo de investigar as graves violações aos direitos humanos cometidas pelo regime militar desde 1964.
Por ondem de sentença judicial, de 2003, determinando que o Estado deveria envidar esforços para localizar e entregar os corpos dos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia às famílias, em 2009, é criado o Grupo de Trabalho Tocantins – GTT, com pesquisadores de universidades
federais e militares. Em 2011, durante o governo de Dilma Rousseff, foi instituída a Comissão Nacional da Verdade (Lei 12528/2011), reestruturando o GTT, que passa a se chamar Grupo de Trabalho Araguaia – GTA, com ampliação do grupo incorporando os familiares as atividades de busca dos corpos dos guerrilheiros.
Desde os anos de 1990, foram realizadas 24 expedições oficiais de busca dos corpos, 27 ossadas foram encontradas e analisadas, mas apenas 3 corpos foram identificados: Maria Lúcia Petit da Silva, cujos restos mortais foram identificados de em 1996; Lourival Moura Paulino, identificado em 2008, cujo corpo jazia num cemitério de Marabá; e Bérgson Gurjão Farias, que teve seus restos mortais de encontrados e identificados em 2009. Os demais guerrilheiros mortos figuram oficialmente listados como desaparecidos.
A busca dos restos mortais dos guerrilheiros desaparecidos se tornou um suplício para suas famílias e entidades de direitos humanos e motivo de conflitos políticos e judiciais envolvendo parlamentares e outros defensores da Ditadura Militar. Em 2016, após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, quando o presidente Michel Temer (MDB) assumi o governo federal as atividades do GTA são paralisadas e nenhuma expedição nova é realizada para tentar localizar os restos mortais dos guerrilheiros.
Neste contexto, o projeto de série documental “Araguaia, Guerra dos Ossos”, nasce do interesse em produzir a continuidade ao filme documentário “Araguaia, Campo Sagrado” (Evandro Medeiros, Produtora LaBour Filmes, 2010), agora indo além dos relatos sobre os fatos que envolvem o período de ocorrência da guerrilha em si e trabalhando com eventos históricos e conflitos que envolvem a busca dos restos mortais dos guerrilheiros desaparecidos.
A série “Araguaia Guerra dos Ossos” retomou e ampliou as pesquisas realizadas durante a produção do filme documentário “Araguaia, Campo Sagrado” (2010), recuperando imagens de arquivo e produzindo novas sonoras e capturas de imagens em incursões na região do Bico do Papagaio, Serra das Andorinhas, comunidades rurais e cidades sudeste do Pará, Belém, Brasília, Belo Horizonte - MG, Salvador - BA e São Paulo - SP, para entrevistas com familiares dos desaparecidos; membros do Grupo de Trabalho Araguaia, responsável pela busca dos corpos dos mortos; Comissão Nacional da Verdade; ex-guerrilheiros e camponeses testemunhas do período da guerrilha. A execução do projeto resultou na produção de 5 (cinco) episódios, com a série totalizando 213 minutos de duração, nomeados “A Verdade dos Afetos” (41 min), “A Guerra que Vem Depois” (30 min), “Mortos e Desaparecidos” (51 min), “Luta em Luto Contínuo” (40 min) e “Ainda Estamos Aqui” (51 min).
A série inclui recursos de acessibilidade em Audiodescrição e Libras, neste último caso, em parceria com o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão Acadêmica – NAIA/UNIFESSPA, o projeto inovou com a criação de um novo formato de janela de tradução de Libras e lançou um Nota Técnica para justificar e informar suas características.
Foram ainda realizadas oficinas de produção audiovisual com estudantes indígenas e camponeses, como atividade de contrapartida do projeto e sessões de apresentação de primeiro corte do material produzido, para escuta e avaliação da receptividade do público, incluindo pessoas surdas e cegas.
Ao abordar graves violações de direitos humanos ocorridos durante a Ditadura Militar do Brasil, em especial a partir da escuta de camponeses da região e familiares dos mortos e desaparecidos do Araguaia, a produção da série “Araguaia Guerra dos Ossos” traz importantes contribuições para preservação da memória social coletiva e compreensão crítica da história, com base na afirmação senso ético e de justiça que são pilares importantes da democracia
A série “Araguaia, Guerra dos Ossos” (2026), é uma produção da TramaTeia Filmes, obra contemplada no Edital Nº 02/2025 de Fomento à Criação de Projetos Culturais, da Secretaria de Estado de Cultura do Pará – SECULT-PA e a Fundação Cultural do Pará - FCP, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura – Governo Federal.
Achados no Museu da Guerrilha do Araguaia.
A Comissão da Verdade do Pará em conjunto com a Universidade Federal do Sul e Sudoeste do Pará (UNIFESSPA) e da Associação dos Torturados na Guerrilha do Araguaia (ATGA) apresentou ontem, 31/08, no auditório do Campus I, em Marabá, relatório da Diligência realizada, em 18/06, ao antigo Museu da Guerrilha do Araguaia, em São Geraldo do Araguaia (PA).
A mesa, coordenada pelo comissionado Paulo Fonteles Filho e pela professora Idelma Santiago (UNIFESSPA) contou com as presenças de Sezostrys Alves da Costa (ATGA) e do deputado federal Beto Salame (PROS/PA), membro-titular da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
O acervo recolhido, depois de detida análise, revelou que o antigo Museu da Guerrilha do Araguaia serviu, durante mais de vinte anos, de fachada para as ações de monitoramento, vigilância e informações de Eduardo Lemos Porto, técnico-agrícola, infiltrado no Sul do Pará entre às décadas de 1970/1980 pelo Centro de Inteligência da Marinha (CENIMAR), conforme comprovam os documentos tornados públicos pela Comissão da Verdade do Pará (CEV-PA).
A infiltração do agente na região, onde foi deflagrada à guerrilha do Araguaia (1972/1975), correspondeu às preocupações com que a repressão política teve com a ação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Partido Comunista do Brasil (PC do B) no curso das crescentes lutas de resistência dos posseiros conta a grilagem e os projetos de grandes empreendimentos capitalistas no Sul e Sudeste do Pará.
A ação de Eduardo Lemos Porto, ligado à Marinha desde 1973, foi de assessoria as ações do Grupo Executivo de Terras Araguaia-Tocantins (GETAT), instrumento que militarizou a questão fundiária na região onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia e que era ligado diretamente ao então Conselho de Segurança Nacional (CSN), da Presidência da República.
Os documentos comprovam, ainda, que a estrutura de vigilância e de informações aos órgãos de segurança perdurou até a década de 2000 e que o movimento dos camponeses que lutam para conquistar reconhecimento e reparação, ligados à ATGA, foram monitorados pela estrutura clandestina com amplas conexões com agentes do Estado na ativa.
A documentação recolhida, incluindo documentos originais do GETAT e relatórios de informações, estão sob a guarda da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA).
Primeira Caravana de Familiares de Mortos e Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia.
Fotografias históricas da primeira viagem de familiares de guerrilheiros e guerrilheiras, ainda durante o regime militar, em 1980, à região da guerrilha. Coordenada pelo advogado Paulo Fonteles, então assessor jurídico da Comissão Pastoral da Terra (CPT), chamado de "advogado-do-mato" por assessorar juridicamente os camponeses da região do Bico do Pagagaio, vítimas da Ditadura Militar e da violência de fazendeiros e pistoleiros locais. A Caravana de Familiares de Mortos e Desaparecidos da Guerrilha do Araguaiafoi uma incursão tensa e perigosa a um ambiente ainda cercado de vigilância militar, ameaças e silêncio dos camponeses e moradores da região. Na ocasião, os familiares buscavam informações na tentativa de localizar parentes ou suas ossadas enterradas.































